17 dezembro, 2010

WorkShop de TATUAGEM DE CADEIA


Amanhã vai rolar o 1º Encontro CURITIBA TATUAGEM, promovido pelo Blog de mesmo nome, ( http://curitibatatuagem.wordpress.com/ ) em parceria com o Fotógrafo André Raittz ( http://www.andreraittz.com ), e o local é o já famoso Barba Negra Hamburgueria ( http://twitter.com/o_barbanegra ).

Durante o Evento, fui convidado pra realizar um workshop nada convencional, sobre TATUAGEM DE CADEIA.

Vai ser um mini-curso baseado nas pesquisas para a minha monografia, (que estão neste blog ) com algumas explicações teóricas sobre o que tatuagem carcerária, como se configura, exemplos de algumas organizações criminosas que se utilizam desses códigos. Também vou falar de algumas técnicas de improviso, de como se pode gravar na pele alguma imagem, o principio básico de uma maquina caseira de tatuagem, e também vamos experimentar algumas destas técnicas na prática!!

SIM! Vai rolara tattoo p quem tiver inscrito e tiver coragem!

Preparei um pequeno resumos dos tópicos tratados, uma mini apostila, e também um certificado de conclusão de curso! (que talvez possa ser útil caso algum inscrito venha a enfrentar algum período de cárcere.)


Aos interessados, entrar em contato com encontrocwbtatuagem@andreraittz.com , ou procurar alguém da organização no dia do evento.


é issaê!



06 dezembro, 2010

Entrevista com CRIPTA

Em outubro, depois de já ter tido algumas conversas por e-mail e falado sobre o meu trabalho e este blog, encontrei com o Djan Ivson, mais conhecido como CRIPTA.

Pixador das antigas, CRIPTA hoje é responsável pelos DVDs da série 100 COMÉDIA, que traz imagens impressionantes sobre o universo da pichação paulista. Além de, juntamente com Rafael PIXOBOMB, organizar os ataques dos pichadores à 28ª Bienal de São Paulo.

Rafael PIXOBOMB, era aluno da Faculdade de Belas Artes, em São Paulo, e seu Trabalho de Conclusão de Curso, foi o ataques de pichadores à exposição de Diplomação. ARTE COMO CRIME, CRIME COMO ARTE ]

Este ano, tanto Djan quanto Rafael, foram oficialmente convidados a participar da 29ª Bienal, como o COLETIVO PIXAÇÃO SP.

CRIPTA já tinha participado de uma exposição, em Paris, na Fundação Cartier, chamada “Né Dans La Rue: GRAFFITI” – e que vocês podem saber mais visitando o link1 e o link2.

E é sobre essas inclusões marginais nos espaços institucionalizados de Arte, e sobre a pixação, que conversei com CRIPTA, confira aí alguns trechos:

TAIOM – Djan, na sua visão o que caracteriza a pichação? Se pudesse resumir, o que seria a essência da pichação?

DJAN CRIPTA – A pichação está mais baseada na estética, o diferencial dela você percebe pela estética, né? E a essência da pichação mesmo é um corre existencial de uma parte da população que vive à margem, na periferia, que acaba encontrando no movimento uma opção de lazer e de reconhecimento social. Acho que devido até à ausência do Estado na vida de muitas pessoas a pichação acabou surgindo. E acabou virando uma forma não só de corre existencial, como uma forma de expressão artística também. Porque às vezes o cara que é pichador, ele não teve opção de aprender, de estudar em uma escola de artes, aprender desenho, essas coisas, e tem aquele potencial dentro dele, que é uma coisa que ele não consegue segurar. Então eu acho que a pichação é mesmo esse grito existencial.

(...)


TAIOM - Se fosse pra você dizer a linha que diferenciaria o que é grafite e o que é pichação. Já vi pessoal falando que graffiti é mais elaborado tem cor... Até a própria definição de graffiti no Aurélio, fala que ele passa uma mensagem de protesto. Outra coisa que eu pesquisei é que o Brasil é o único lugar onde existe essa diferenciação entre pichação e grafite na forma de palavra mesmo. Geralmente no exterior, usa-se o mesmo termo pra definir pichação, graffiti, tag, e tudo mais... Aqui no Brasil tem essa visão bem diferente do que é pichação, do que é grafite mas ninguém sabe onde acaba um e termina outro... Onde é que seria?
CRIPTA – Eu acho que fica bem claro pra quem é pichador porque o movimento Pixação é um movimento tipicamente de São Paulo, paulista né? Nasceu aqui... Como o Graffiti nasceu em Nova York, entendeu? São dois movimentos distintos que tem a mesma essência, né? Nasceram praticamente da mesma forma. Um grito existencial, uma forma de expressão... libertária, que não precisava de um aval da sociedade pra poder estar se apropriando de espaços públicos e privados. Porém, o graffiti, devido à sua estética ser mais colorida, ele passa a ter uma aceitação melhor perante a sociedade, mas também perde sua essência transgressora . Que é o que acontece, hoje em dia pode se dizer...

TAIOM - Está ficando estéreo, né?
CRIPTA – É. O graffiti MESMO, essência, ele é bem pouco, ele é tímido. Se for comparada à pichação no Brasil, ele quase não existe. Ele se torna uma coisa bem pequena. Agora existiram, acabaram se criando outras formas de graffiti. O graffiti comercial, o desenho com técnicas de graffiti, o muralismo... É. Uma mistura de movimentos né? Do muralismo com o graffiti e acabou surgindo uma coisa mais... eu não diria artística, mais técnica e menos transgressora. Mais domesticada inclusive né? Porque não é só o lance da transgressão que se perde, é o lance da liberdade...

(...)


TAIOM - E a relação da pichação com o espaço urbano, como tipo de ocupação de certas brechas que o sistema deixa? (...) A população que é colocada às margens, pela periferia, mas acaba voltando por que tem muito espaço vazio nesse espaço urbano. Qual a relação da pichação com esse espaço?
CRIPTA – É, então, praticamente tudo é tomado pela pichação. Tem o lance de atacar os locais mais deteriorados, pelo apego que o pichador tem com a sua assinatura, de querer ver aquilo permanecer por mais tempo, mais também tem o lance instantâneo né? Daquele impacto de pegar um prédio que, porra! Super escandaloso a fachada dele, que você sabe que vai apagar no outro dia, mas você vai fazer e aquilo vai entrar pra história como algo que foi conquistado. Então tem esse da demarcação e da conquista. Isso é muito presente na pichação como na sociedade também, só que de uma forma simbólica, né? São os excluídos buscando alguma forma de reconhecimento, de demarcação. Por que a gente não tem nada na cidade, a gente mal tem casa. Muitos moram aí em locais invadidos ou pagam de aluguel com muita dificuldade, e de repente você é dono de um prédio. Aquele prédio vira seu, porque você conquistou ele, sabe? Tem muito disso, é muito legal essa inversão de valores que existe.

(...)

TAIOM – Falando em arte, como que foi essa passagem pro espaço institucional, só que dessa vez a convite?

CRIPTA – Desde quando a gente começou toda essa transição, com o sacrifício do TCC do Rafael, nas Belas Artes, nossa busca é existencial também, até porque o movimento era simplesmente ignorado. Que nem eu disse, não que a gente precise definitivamente do aval desses caras pra ser arte. Pichação ela já é arte por si só. Mas se realmente, as pessoas que estão à frente das instituições de arte no Brasil prezam realmente pela arte, era mais do que direito a pichação ter tido já esse reconhecimento. Que já é um movimento que existe há trinta anos e ele se apropria de tudo na cidade né?

TAIOM – Ela tá bem na cara de todo o pessoal que vive na cidade, mas finge não ver...
CRIPTA – Principalmente o circuito das artes, que sempre apontava para um caminho que pichação é uma doença , e que se o cara se transformasse num grafiteiro ele seria curado. Então pichação é uma doença e o graffiti a cura, entendeu? Então é muitas pessoas que estavam à frente da arte, e estão até hoje, apontavam pra esse caminho, ou acham que esse é o caminho. Acham que pichação é algo que é transitório, que o cara por aquilo ali ele vai superar, e não. Tem cara que é pichador desde os anos 80 e tá pichando até hoje.

TAIOM – Não por falta de conhecimento estético ou de arte...
CRIPTA – Não, não. Porque o talento dele tá ali, é outra forma de talento, entendeu? Cada um tem um potencial. Um faz escultura, o outro faz gravura, e tem o cara que pixa.


TAIOM – E a transição para o caso dessa bienal agora, através dos registros...
CRIPTA – É. Voltando ao foco do assunto... Como as instituições de arte acabaram... O Ministério da Cultura, que é o principal né? Quem dita o rumo da arte no Brasil é o Ministério da Cultura, que financia todos os projetos... A pichação ela não precisa do Ministério da Cultura pra sobreviver, e isso já é muito claro, certo? Então é, de que forma a gente iria fazer isso, sem ferir a nossa essência? De forma documental, de uma forma que a rua estaria ali, mas sem estar ali. Estaria ali na forma de um registro.

TAIOM - Fragmento...
CRIPTA – É. Porque não tem como a gente levar. Nosso ateliê é a rua, nossa tela é a rua. A gente não precisa de uma tela de pano pra tá fazendo o que agente faz, entendeu? Então como representar algo tão grande se dessem uma parede em branco pra nós? Seria pouco. É só mais uma representação estética. Por mais que seja interessante também o reconhecimento estético, pelo que o movimento representa é pouco. Então foi dessa forma que a gente falou... Que a gente tá sempre convicto que é a melhor forma de representar o movimento. Porque em Paris foi mais interessante ter esse reconhecimento estético, essa representação estética porque realmente não se vê pichação na Europa, do tipo paulistano. Porque até o tag, ele é a evolução do graffiti, tag e graffiti é tudo a mesma coisa lá. Se você acompanhar a historia de Nova York, você vai ver que o graffiti evoluiu dos tag, que começaram a ser contornados elaborados e tal. Mas a pichação aqui, a única evolução dela é de apropriação.

TAIOM – Procurar lugares maiores, mais difíceis?
CRIPTA – É, isso. Porque cada pichador tem sua estética. Então a riqueza de estética é muito grande.

TAIOM – Variada...
CRIPTA – Variada. Infinita, pode-se dizer. Então é muito legal que tem esse lance da identidade da pessoa, cada pichador ele vai ter seu estilo, por mais que ele até tente copiar alguém. Ele vai tentar mas vai ter um traço genético dele ali, sabe? Isso é interessante.

(...)



TAIOM – E questão de estética, como é o estudo técnico de um pichador? Como é a formação dele, a tipografia? Como é que vêm esses desenhos? Tem a questão da troca de folhinha? Como é mais ou menos?

CRIPTA – Eu acho q é meio que uma influência, né? Ele acaba sendo influenciado por pixos que ele vê na infância, no correr de sua formação de rua. E ele acaba criando um estilo automaticamente único também, o movimento pede isso. E automaticamente alguém que tenta copiar outro acaba não copiando porque acaba criando um estilo parecido, que acaba sendo único também. Então tem muito desse lance da identidade mesmo. O pixo ele cria a identidade do cara. Ele acaba se tornando.





NOTA: para visitantes de primeira viagem, aconselho dar uma olhada na APRESENTAÇÃO e se pá, na INTRODUÇÃO também.

15 outubro, 2010

Foi Sorte, mas o Diabo tem cobrado...


A ação deste trabalho joga diretamente com uma particularidade da cidade. Brasília como Capital do Poder, sede do Governo e palco de incontáveis escândalos envolvendo fraude, corrupção, desvio de dinheiro publico entre outros crimes à sociedade. Este aspecto não poderia passar em branco perante um trabalho que trata de criminalidade, mesmo que estes marginais estejam ocupando cargos públicos.

O cenário dos crimes e alvo das intervenções é agora o Congresso Nacional, sede do Senado Federal e da Câmara dos Deputados, e localizado na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, contando com um forte esquema de segurança devido ao seu valor político. Espaço de difícil acesso, mas não completamente invulnerável, dando margens para ações criminosas de políticos tanto quanto para minhas composições artísticas.

Como ícone, escolhi uma imagem do vocabulário visual da máfia russa, que designa os ladrões muito experientes. Mas o que me chamou a atenção neste desenho em específico, é que ele traz uma conotação de justiça, ainda que divina, uma noção de causa e efeito que lembra ao portador, que ele há de pagar pelos seus crimes. A imagem trata de um Demônio (Черт – do folclore russo, representa o Demônio, o Diabo, mas sem a conotação católica da tradução) carregando um saco nas costas e é lida com a expressão “Foi sorte, mas o Diabo tem cobrado” (Было счастье, да черт унес ) .

Diabo com um saco. "Foi sorte, mas o diabo tem reclamado." O dono da tatuagem tem uma grande experiência em roubos.

A tatuagem foi então adaptada para as particularidades do local, com dimensões reduzidas para viabilizar sua gravação e visualização, tanto num sentindo monumental tal qual o predio do Congresso quanto numa comunidação mais intima com os individos que fazem este organismo politico funcionar.





NOTA: para quem não se ligou no que tá rolando aqui, aconselho dar uma olhada na APRESENTAÇÃO e se pá, na INTRODUÇÃO também.



06 outubro, 2010

O Crack e o Saci

Outro foco do trabalho foram os traficantes e usuários de crack, droga que tem se alastrado pelo país e faz em Brasília um crescente numero de dependentes. Citada em diversas reportagens, tanto na mídia impressa como na televisionada e também através da internet, Brasília ficou conhecida pela proximidade das chamadas crackolandias com o centro do poder político nacional. Situadas nas proximidades da Rodoviária do Plano Piloto e Setor Comercial Sul, e são áreas onde o tráfico é intenso e o consumo se dá também a luz do dia.

Nos arquivos do Museu Penitenciário vinculado a Secretaria de Administração Penitenciaria de São Paulo aparece um registro curioso com base nas pesquisas de Moraes Mello. A figura do folclore popular do Saci (ou Saci-pererê), um negrinho de uma perna só que usa um gorro vermelho e esta sempre pitando um cachimbo, foi percebida gravada na pele dos detentos que exerciam atividades de tráfico de drogas. A figura do ser maléfico e brincalhão é rara nos detentos dos dias de hoje, mas esse símbolo pôde ser transferido à contemporaneidade através de uma nova associação. O cachimbo característico do Saci hoje em dia é também referente aos usuários de crack, que o utilizam para fumar a droga, que é vendida em forma de uma pequena pedra.






O Saci aparece na cidade significando tanto traficantes como usuários, e também acompanhado da inscrição CRK, uma abreviação aos moldes das que os pichadores criam para designar seus pseudônimos ou o grupo ao qual pertencem, o que enfatiza a ligação da imagem com a droga consumida no local. A tipografia utilizada é também referenciada na cultura dos pichadores, são letras retas e pretas características da pichação de São Paulo.









NOTA: para visitantes de primeira viagem, aconselho dar uma olhada naAPRESENTAÇÃO e se pá, na INTRODUÇÃOtambém.

01 outubro, 2010

Selo INMETRO de Prostituta Limpinha


O primeiro plano de composição tem como referencial direto uma tatuagem encontra entre as prostitutas que eram tratadas como propriedade da Vor v Zakone. Feita a força, pretendia assegurar a procedência e qualidade da mulher que a carregasse, e sinalizava ao mafioso que pretendia ter relações com tal corpo que este estava livre de doenças sexualmente transmissíveis. Seu ícone era o selo de qualidade concebido pelo governo da União das Republicas Socialistas Soviéticas, e era gravado sobre o seio da mulher, ou em outra região intima.

11: Znak Kachestva, selo de qualidade instituído pela URSS e suas rigorosas regras de composição.

12: Selo de qualidade tatuado no seio juntamente com a inscrição em inglês made in.

Para reconfigurar este conceito na cidade, no caso Brasília, DF, o selo da URSS foi substituído pelo seu similar brasileiro, podendo ser facilmente reconhecível no contexto inserido. Por aqui, a certificação de qualidade de produtos comercializados é dada pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial – INMETRO – e possui diferentes configurações e formatos de acordo com o produto e o segmento social para o qual é destinado.

Na ausência de normalização para o comércio do corpo e conseqüentemente a inexistência de um selo específico pra tal ato, utilizei a logomarca do instituto, que é reproduzida em todos os seus selos independente das suas características específicas. Porém uma proximidade maior com o novo contexto em que o selo foi inserido é obtida através da do uso da cor. Segundo o Regulamento para Uso das Marcas, Símbolos de Acreditação e Selos de Identificação do Inmetro o foco do programa e a cor do selo estão relacionados, justamente para facilitar a visualização e identificação por parte dos consumidores e sendo instituido a cor azul como referente à assuntos de saúde.

Tendo o signo já definido parte-se para a escolha das superfícies a serem tatuadas. Brasília tem espaços urbanos bastante conhecidos de seus moradores por abrigarem este tipo de transação sexual. Tais espaços também são divididos com outros tipos de atividade social, como o comércio e o transporte público, mas são ocupados nas rupturas destes fluxos. A noite torna as ocupações mais freqüentes, e é neste breve espaço de tempo, sem a luz do sol, que prostitutas agem. Um tempo relativamente curto, mas que pela sua repetição cotidiana enraizou-se no conhecimento popular. Não é preciso muito esforço para saber que a quadra comercial 315 e 314 norte são pontos tradicionais para esse tipo de relação social. Partindo dali, as garotas de programa tomaram como seus ‘escritórios’ os pontos de ônibus ao longo de toda a avenida W3 Norte.

Foi neste cenário que compus o Selo INMETRO de Prostituta Limpinha, interagindo com o local e as pessoas que por ali transitam, sejam meretrizes, clientes, pedestres ou transeuntes. A série de tatuagens foi registrada através de fotografias, como meio de divulgar o trabalho e permitir a visualização de parte da obra mesmo que a distância. Digo parte da obra, pois se tratando de uma composição urbana, side specifc, a obra só está completa em seu contexto original.

As fotografias, por sua vez, registram também o caráter proibido, efêmero e marginal, que não busca explicar, apenas sugere uma leitura. Borrados, tremidos, e a perca do foco são rastros da forma com que as ações foram feitas e registradas e fazem parte da linguagem estética do trabalho.


















NOTA: para visitantes de primeira viagem, aconselho dar uma olhada naAPRESENTAÇÃO e se pá, na INTRODUÇÃO também.


30 setembro, 2010

Composição Urbana

Partindo das observações realizadas ao longo da pesquisa (e postadas aqui no blog) e das proximidades conceituais entre as técnicas e o suporte utilizado, o trabalho entra no campo da experimentação através de composições urbanaso termo composição urbana é utilizado pelo Grupo de Pesquisa Corpos Informáticos, em contraposição ao termo intervenção urbana, como convenciona-se denominar ações artísticas realizadas na rua, pois não pretende intervir na cidade, mas sim compor com ela novos contextos – que se configuram através de marcas no corpo social. Tatuagens carcerárias gravadas nos espaços urbanos marginais.

Uma interação com a cidade e seus habitantes, que pretende tornar visível no corpo coletivo, rastros da sua vida, da sua história, trazendo aos olhos fragmentos e indícios da ocupação dos espaços urbanos por grupos de delinqüentes, criminosos e contraventores. E que são quase sempre esquecidos ou ignorados, por transgredirem as regras de conduta da sociedade civilizada.

Ao utilizar de signos retirados e adaptados de códigos fechados, como são as tatuagens de cadeia e a pichação, para deixar exposto a qualquer transeunte os indícios da historia marginal ocorrida no espaço/tempo urbano, o trabalho encontra uma questão importante: Porque fazer meu trabalho na cidade, na rua, onde todos podem ver e poucos poderão compreender minha mensagem?

Para responder esta questão, utilizo conceitos do grupo Corpos Informáticos a respeito de sinais nomadizantes e sinais noRmatizantes. O grupo explica que “o sinal noRmatizante (sic) assemelha-se a tatuagem, é previsível, advém de um projeto, se instala convenientemente em locais pré-estabelecidos, estigmatiza, classifica, e permanece no corpo como marca.”. Porém, acredito que as minhas tatuagens feitas no corpo urbano, atuam como sinais nomadizante, que são definidos como sendo “sinais que produzem uma espécie de cesura, onde a espacialidade e atemporalidade anterior se tornam alteradas; uma tensão imediata e modificadora, arrebatamento, nocaute, desesclarecer momentâneo, questionamento obsceno, perturbador, reflexos perplexos, pausas.” São assim, sinais que retiram o corpo que os carrega da conveniência, e que “permanece na memória do corpo e no corpo da memória.”. Desse modo as marcas que deixam visível a história marginal, as tatuagens deste corpo urbano, signos postos de maneira explicita, ao alcance da visão de todos, são sinais noRmatizantes numa função de sinais nomadizantes.

A ‘denúncia’ está lá escrita, mas não na maneira de um tablóide que escancara em suas manchetes: “EXTRA! EXTRA! PORTA DE ESCOLA SE TORNA BOCA DE FUMO!!!!”, e sim de uma maneira silenciosa, um indício que convida o espectador a um questionamento. Mas um convite, que pode ser aceito, ou não, percebido, ou não. Assim como as pichações não são decifradas por todos, mas apenas por aqueles que buscam tal compreensão, e também como as tatuagens de uma gangue só podem ser lidas em sua plenitude por quem foi iniciado nestes códigos.

Porém, quando se expõe um trabalho ele vai ser lido, de uma forma ou de outra, entendendo-se a idéia inicial do artista ou não, de maneira ‘certa’ ou ‘errada’, em sua totalidade ou parcialmente, ou ainda de uma maneira totalmente nova, pois a leitura é feita de pré-supostos que mudam de expectador para expectador. Aqui encaixaria uma definição do que seria uma Obra-Aberta, uma proposta de um campo de possibilidades interpretativas, como configuração de estímulos dotados de uma substancial indeterminação, de maneira a induzir o leitor a uma série de leituras sempre variáveis; enfim, como constelação de elementos que se prestam a diversos diálogos.

Vale ainda ressaltar, que tal prática se utiliza de métodos para ocupações similares a dos grupos estudados e a dos que serão representados através das marcas. Prática ilegal e atividade de risco, a pigmentação da pele social transgride o planejamento urbano e coloca o artista na mesma situação que seu objeto de estudo. Vista com maus olhos, as ações então foram programadas para as madrugadas, sob a mesma escuridão onde agem os grupos marginais, por apresentarem um menor fluxo social e onde as brechas do sistema ficam mais frouxas e passiveis de ocupações.

Dentro de um universo de possibilidades, de histórias que poderiam ser sinalizadas, escolhi apenas três para iniciar estes tipos de composições. Rastros de prostituição, tráfico de drogas, e roubos foram estudados e configuram esta etapa prática dos trabalhos. São composições marginais que interagem com o espaço, sugerindo questionamentos e novos olhares para uma mesma cidade e cidadãos.

(continua...)

Referências:

Composição Urbana (CU) e Ueb Arte Iterativa (UAI) – Práticas e teorias artísticas do Corpos Informaticos.

NOTA: para visitantes de primeira viagem, aconselho dar uma olhada na APRESENTAÇÃO e se pá, na INTRODUÇÃO também.

23 setembro, 2010

Os corpos e suas gravações

“Nada é mais próximo da comunicação humana

do que nosso próprio corpo.”

Célia Maria Ramos.

O suporte utilizado numa produção artística é parte essencial da obra, ele dialoga com a técnica e enfatiza certas características conceituais. A escolha do suporte é fundamental para a concepção do trabalho, pois é ele que vai “carregar” a obra, e é através dele que esta se apresentará aos sentidos do interlocutor. Uma gravura em madeira traz consigo referenciais históricos e culturais diferentes de uma pintura em tela, por exemplo, do mesmo modo que uma mesma pintura sobre tela ou sobre um muro tem significação social diferentes entre si.

O suporte deste trabalho é o corpo, primeiramente aquele feito de carne, sangue e pele, sagrado ou profano, o corpo humano. O primeiro e o ultimo traje de uma pessoa, com o qual se entra e se parte da existência mundana. Tido como o primeiro suporte da comunicação e o mais próximo das relações sociais como definia o cientista político Harry Pross em muitos dos seus escritos citados por Célia Maria Ramos. O limite físico do ser individual no mundo que o cerca, sua referência pessoal, é a superfície que divide o Eu dos outros. Em seguida, numa noção de pluralidade, o corpo passa ser coletivo. Ao modo que o individuo forma conglomerados humanos, sociedades, e se agrupa por aproximações culturais, a fronteira que delimita a noção de nós passa a ser o muro, ao invés da pele. Tanto os muros da casa de uma família, as muralhas de um castelo, ou as fachadas de arranha-céus, são os limites dos espaços privados/públicos, individual/coletivo. Neste caso o suporte é o corpo urbano.

A necessidade humana de guardar informações, de transmitir conhecimentos e memórias, e o modo como essa motivação foi se desenvolvendo ao longo dos séculos, encontrou na gravura, na impressão, um modo a reproduzir tais conhecimentos e multiplicá-los, fazendo com que uma memória ultrapasse o limite do tempo, o limite da linguagem oral. A gravura traz consigo este aspecto histórico duradouro, e de socialização de memórias. Já na Bíblia, a palavra “gravado” significa “indelével”, “irrevogável”, e o verbo hebreu ‘zekher’ além de “gravar” também significa “lembrar-se”.

A tatuagem é a forma de gravar em um suporte vivo, o corpo humano. Interferência profunda e permanente. Este desejo de permanência de uma escrita, já utiliza o corpo como suporte a muito tempo. Passando do corpo individual, para um corpo coletivo, essas gravações aparecem na forma de pichações e grafites. Interage com a arquitetura de maneira semelhante com a qual um tatuador lida com a anatomia. E devido ao caráter transitório e efêmero característico das ruas dos centros urbanos, as pichações por sua vez carregam também essa impermanência, porém se fazem indeléveis através de sua incansável repetição, massiva e presença histórica tão antiga quanto a própria organização do homem em sociedade. É através das pichações, que anônimos ganham a visibilidade, demarcam seus territórios, deixam rastros por onde passam, escrevem nas paredes suas identificações e deixam registros de suas existências e também de como se inserem na sociedade da qual foram marginalizados.

- 1. Célia Maria Antonacci Ramos, Doutora em Comunicaçlão e Semiótica e professora do Ceart/Udesc. Autora de As nazi-tatuagens: inscrições ou injúrias no corpo humano? São Paulo: Perspectiva, 2006. E Teorias da tatuagem: corpo tatuado: uma analise da loja Stoppa Tattoo da Pedra. Florianópolis: UDESC, 2001.

03 setembro, 2010

Vor v Zakone - Máfia Russa

Voltando para as pixações humanas, uma oura referência forte no meu trabalho é o código de tatuagens da máfia russa Vor v Zakone ( numa tradução livre, algo como "Ladrões na Lei ").

“Em prisões russas, sua história de vida está escrita em seu corpo, em tatuagens. Você não tem tatuagens, você não existe." – Eastern Promises do diretor David Cronenberg. Universal, 2007.

(desculpe, mas não achei trailer legendado...)

Os Vor v Zakone não costumam tatuar o rosto, porém a complexidade e a riqueza de seu código chamam a atenção. Sendo uma organização hierárquica, as tatuagens têm o papel de classificar essa escala social dentro da facção, podendo até ser removida com processos químicos caso um membro perca um determinado cargo. O uso destas tatuagens pode ser voluntário ou forçado, como forma de punição do indivíduo dentro da sociedade criminosa. E aqueles que possuem tatuagens com os símbolos russos sem o devido merecimento pode ser punido com a morte.

Nascidos nos campos de prisioneiros de Stalin, os Vory se transformaram nos barões do crime, assumindo o status de elite do submundo na Rússia. Possuem um rigoroso código de honra e lealdade, e até um dialeto próprio, características que se refletem em suas tatuagens. Eles estão envolvidos em todo tipo de prática criminosa, desde pequenos roubos, prostituição, trafico de drogas e de armas, ate esquemas de lavagens de bilhões de dólares.

Os simbolismos desta facção são tão complexos e secretos quanto ela mesma. Saber identificar suas tatuagens pode trazer detalhes precisos sobre a vida do tatuado. Assim como as imagens dos ortodoxos russos representam os trabalhos piedosos dos santos, as tatuagens dos Vory detalham suas façanhas criminais. E é essa riqueza de informação que torna esta prática característica da máfia Russa.

Através das suas tatuagens é possível saber aonde o mafioso as fez, qual presídio que esteve condenado, o número de condenações a que respondeu processo, se é órfão, se atua no campo ou na cidade, se é descendente de membros da máfia, quais tipos de crimes praticados, se é viciado em drogas, se passou por centros de reabilitação juvenil, se é anti-semita e se é fugitivo, dentre outros aspectos possíveis de serem deduzidos a partir da análise das suas gravações corporais.

Outra característica interessante das tatuagens de cadeia é a técnica desenvolvida para gravação de corpos. Máquinas de tatuar feitas com motor de barbeador, agulhas com cordas de violão, fabricação da tinta a partir da raspa da borracha da bota dos detentos misturada à própria urina do tatuado, ou até cinzas de cigarro com saliva, e suas demais variações de acordo com os materiais disponíveis para no cárcere. Essa técnica improvisada confere aos desenhos uma estética particular, um aspecto rudimentar característico do seu modo de produção. Traços grossos pela falta de precisão dos instrumentos, falhas, distorções, borrados provocados pelo movimento do pigmento no tecido subcutâneo, interrupções na plasticidade da imagem provocadas por inflamações, uma cicatrização inadequada conseqüência da falta de higiene e até mesmo os desenhos primitivos e sem estudos elaborados são elementos estéticos marcantes deste tipo incisão no corpo.





Mosteiros, igreja e catedrais são como metáforas para presídios,as vezes aparecendo junto as inscrições como “A Igreja é a casa de Deus”, subtendendo-se “a Cadeia é a casa do Ladrão”. O numero de torres indicam os anos de condenação ou o numero de vezes que foi preso.




Esta tatuagem indica alto cargo na hierarquia da Máfia, como capitão, major etc. já o crânio geralmente designa assassinos.


Segue alguns links pra quem quiser ver mais coisas a respeito...

LEGAL, tá tudo em russo!! ¬¬ . É complicado para arrumar informações mesmo, mas não é impossível. Vale tentar isso no google e sair catanto o q interessa: (русский уголовного татуировки)




20 agosto, 2010

PIXO

Uma pausa nas tatuagens para mostrar outro aspecto importante do meu trabalho e que se passa na esfera urbana. O tema de hoje são as inscrições marginais no espaço Urbano que utilizo como referência visual: as pixações (escrita com X como é utilizada pelos grupos envolvidos, ilustra o caráter transgressor inerente ao ato, uma subversão da língua portuguesa).

Assim como as tatuagens de organizações criminosas, as pichações dificilmente são compreendidas por quem não está diretamente relacionado com elas, e são também um código fechado, restrito, que comunica diretamente de pichador para pichador, “ela não se comunica com a sociedade. Ela é uma agressão. Ela é feita para agredir a sociedade” como define Choque, fotografo e envolvido com o movimento de pichação em São Paulo, em relato no documentário PIXO (2009).

Letras que podem dizer de onde quem às escreveu veio, qual seu propósito e como ele se organiza, passam quase que despercebidas todos os dias, pois tal código não é decifrado pela sociedade. A “pichação explode nas cidades, produzindo caoticidade na constituição visual do sistema urbano”, como uma espécie de “expressionismo abstrato” como foi citada por Luiz Pinheiro da Costa (Profesor da UFPA), sendo “resultante dos acontecimentos socioculturais”. Neste campo a referência principal é a cena paulistana de pichações, também conhecido como “pixo paulista” este cenário é único no mundo. Possui características tão singulares que o torna produto de exportação e é considerado um fenômeno tipicamente brasileiro, mais especificamente da cidade de São Paulo.

Falo de pixações e não de graffiti, pois são fenômenos diferentes embora estejam intimamente relacionados, vejamos as definições do dicionário Houaiss para os termos:

gra.fi.te
s. f. 1. Lápis próprio para desenhar. 2. Palavra, frase ou desenho, geralmente de caráter jocoso, em muro ou parede de local público ou privado.

pi.cha.ção
s. f. 1. Ato ou efeito de pichar; pichamento. 2. Escritos e desenhos em muros de via pública.

Essa separação entre Grafite (ou graffiti, como é comumente utilizado) e Pichação não acontece em outras línguas, como no inglês onde o mesmo termo define os dois conceitos. Aqui parece ter um abismo entre as duas práticas, uma mais facilmente associada à arte, e a outra ao vandalismo. Porém os limites dessa separação não são claramente especificados. Embora exista o entendimento coletivo de que grafite e pichação são ações diferentes, não se pode afirmar com certeza onde de fato se dá esta separação. O código penal brasileiro separa as duas atividades, usando os termos pichação e grafitagem separadamente, e não como sinônimos. Porém, as duas modalidades se encaixam no mesmo artigo da Lei dos Crimes Ambientais.

Lei N.º 9.605 de 12 de fevereiro 1998.

Art. 65. Pichar, grafitar ou por outro meio conspurcar edificação ou monumento urbano:

Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa.

Parágrafo único. Se o ato for realizado em monumento ou coisa tombada em virtude do seu valor artístico, arqueológico ou histórico, a pena é de seis meses a um ano de detenção, e multa.

Conceitualmente a separação de pichação e grafite, passa pelo argumento de que a primeira não possui elaboração ou técnicas gráficas, e é desprovida de caráter artístico, ao passo que a segunda de acordo com suas origens morfológicas, seria uma forma de expressão artístico-visual (plástica ou não) que utiliza um conjunto de palavras e/ou imagens a fim de transmitir uma mensagem de reflexão.

Mas as gerações de pichadores paulistas, ao longo de décadas, vem destruindo estes conceitos, de modo que não se pode afirmar de maneira nenhuma que suas grafias não possuem elaboração ou técnicas gráficas, e nem se pode negar-lhes um caráter artístico. A cena urbana construída na megalópole possui uma visualidade única no mundo, onde estes gráficos já estão tão adaptadas ao seu contexto que dialogam de forma coerente com a paisagem da capital paulista, onde a arquitetura serve de linha-guia para a escrita, como um caderno de caligrafia a céu aberto. Os desníveis sociais, a criminalidade, a organização espacial, e toda a multiculturalidade e caoticidade da cidade fizeram com que nela brotasse uma identificação visual singular, cheia de características tipicamente brasileiras.

Essa tipografia peculiar foi se desenvolvendo lentamente e traços de suas possíveis influencias podem ser identificadas como logos de bandas de rock, fontes góticas, etruscas, romanas antigas, runas e etc. Fatores gestuais e técnicos também influenciam nas características destas letras e dentro deste universo caligráfico, existem ainda subclassificações, onde cada grupo elabora um alfabeto característico, buscando uma identificação mais marcante.







Referências

PIXO documentário (trecho de 10 minutos)
Choque Photos: PIXAÇÃO - SP (galeria de – ótimas – fotos )
Choque Photos: PIXAÇÃO ART ATACK (registro dos ataques à faculdades, galerias e murais)
Pichação: expressionismo abstrato e caos urnbano (texto do professor Luis Pinheiro da Costa, UFPA)
O que é Grafite? (extraído do site do IBGE )
Grafite (retirado do site Brasil Escola, dentro da sessão de artes)
Os Gemeos 1 e Os Gemeos 2 (tags – pixos).